Versos e flores nas fileiras da Academia

“Tenho que me revelar
antes que fique doida
antes que fique santa
assim mortal
serei igual
a tantas”

A cadência feminina volta às fileiras literárias oficiais do estado. A poeta, escritora e ex-professora Diva Cunha é o mais novo nome a ocupar um lugar na Academia Norte-Riograndense de Letras. A posse se dará nesta quinta-feira, às 20h, com a recente imortal ocupando a cadeira de número 30, cujo patrono é Monsenhor Augusto Franklin. A acadêmica será saudada pelo poeta Paulo de Tarso Correia de Melo. Após longos anos dedicados a ensinar e a fazer (ainda fazendo) literatura e poesia, Diva vê a chegada à Academia como uma possibilidade de participar mais da vida cultural da cidade.

Aldair DantasCom obras como  Resina, Canto de Página e Coração de Lata,  Diva escreveu seu nome na história literária potiguar.Com obras como Resina, Canto de Página e Coração de Lata, Diva escreveu seu nome na história literária potiguar.

“Além de ser incorporada à instituição cultural mais importante do estado, um reconhecimento ao meu trabalho, vejo a academia como uma chance de prestar mais serviços à cidade. Há grandes cabeças por lá, que podem contribuir com palestras, seminários e suas vivências para estudantes e interessados. Espero fortalecer isso”, analisa Diva Cunha, que também destaca a presença feminina histórica na academia: Auta de Souza e Nísia Floresta são patronas de cadeiras que já foram ocupadas por Carolina e Palmira Wanderley.  A ANRL foi fundada em 14 de novembro de 1936.

Ela cita como modelo a Academia Brasileira de Letras. “É uma instituição que se movimenta. Tem uma das melhores bibliotecas do país, promove  ciclos de palestras, leituras de poemas, e discussões sobre literatura. Recentemente, até trouxeram a neta de Lampião para uma palestra sobre literatura e cangaço. Achei isso incrível”, conta ela, que vê as academias literárias como lugares de dinamização da cultura.

Ao seu modo, Diva já vem trabalhando há anos para registrar e enriquecer a obra literária do estado. Formada em letras, lecionou como professora do estado até que aos 23 anos, através de concurso, passou a ser professora de literatura portuguesa do curso de Letras da UFRN. Sua obra constitui exemplares de poesia, ensaios e textos acadêmicos sobre literatura do Brasil e do Rio Grande do Norte – ao todo, 11 livros.

O primeiro livro publicado foi “Dom Sebastião: a metáfora de uma espera”, em 1979, dissertação que defendeu em pós-graduação na Universidade Católica do Rio de Janeiro.

A produção acadêmica de Diva é rica. Vieram também, fruto de pesquisas, “Iniciação à poesia no Rio Grande do Norte”; “Literatura feminina: de Nísia Floresta à Zila Mamede”; “Revista Via Láctea de Palmira e Carolina Wanderley”, e “Literatura do Rio Grande do Norte: antologia” – estes, escritos em parceria com a professora Constância Lima Duarte.

Mas foi na poesia que Diva Cunha construiu sua história – mais em verso que em prosa – na literatura potiguar. Já lançou os livros “Canto de página” (1986), “Palavra estampada” (93), “Coração de lata” (96), “Armadilha de vidro” (2004) e “Resina” (2009), de onde se lê: “Breve é a medida/Dos meus passos/Longa é a sombra/Que pelas areias/Arrasto”.

Há ainda “Rio Grande do Sol”, uma compilação de fotos e versos organizada por Diva e Marize Castro, sob encomenda do governo do Estado. Os versos de Diva falam sobre a mulher, a cidade, e a própria poesia. Um manejo hábil de palavras com dicção própria e equilíbrio exato entre razão e emoção, como seu trabalho já foi descrito entre a crítica da cidade.

Poesia surgida na biblioteca do avô

A influência para os versos veio, claro, do saudável hábito da leitura, cultivado na biblioteca do avô. Diva conta que a princípio vieram os acessíveis poetas românticos do século XIX, que lia na adolescência, como Gonçalves Dias, Casemiro de Abreu, Castro Alves. Depois se seguiram os versos mais complexos dos parnasianos, simbolistas e os modernos, que firmaram seu encanto com as palavras. “Digo que Manoel Bandeira é meu padrinho e  Cecília Meireles é minha madrinha. Claro, também tenho paixão por Carlos Drummond de Andrade. São nomes obrigatórios”, afirma.

Apesar de ver o Brasil como um país mais “poético do que prosador”, Diva lamenta que se leia tão pouco poesia. “A prosa combina mais com o ritmo acelerado da vida, você acompanha pelo enredo. Já a poesia exige mais reflexão, silêncio e quietude. Quando ela é boa, pede muito do leitor. Você precisa ficar em seu cantinho, saboreando como um vinho. Muita gente não tem paciência pra isso”, diz. A mesma quietude também exigida na hora de escrever. “Quando escrevo, quero solidão; mas não aquela negativa, melancólica. É recolhimento, concentração e disciplina. Todo poeta, assim como todo artista, precisa combinar reclusão e estudo na hora de criar. É como marcar um encontro com você mesmo”, filosofa.

Longe há quase dez anos das salas de aula (por último lecionou literatura do RN na UnP), Diva Cunha se dedica hoje a pesquisar e escrever. Entre seus projetos, está a reedição dos livros sobre literatura potiguar. Ela vê com entusiasmo o fato de muita gente jovem escrever poesia atualmente no estado. Mas prefere não opinar sobre o que já leu. “Não vou fazer papel de crítica, algo que até falta em Natal. Mas o tempo é a peneira ideal, e vai depurar o que merece. Apenas ressalto: inspiração é importante, mas sem estudo, não acontece”, conclui, professoral e poética.

Por Tádzio França
repórter

Fonte: Tribuna do Norte